Teoria Literária

Início » 2013 » maio

Arquivo mensal: maio 2013

Jô Soares entrevista Marisa Lajolo

marisa-lajolo_1

 

A professora Marisa Lajolo é pesquisadora, ensaísta, escritora e especialista em Monteiro Lobato. Durante o Programa do Jô, ela falou sobre seus livros, “Monteiro Lobato livro a livro”, da editora UNESP, e “Poeta do exílio”, pela editora FTD.

Marisa Lajolo comentou a polêmica acusação de racismo nos escritos de Lobato, e disse ser contra a censura da obra do escritor. “Acho que ele não era racista. Tenho para mim que ele trabalha com a Tia Nastácia como o Brasil, na época, trabalhava com os ex-escravos”, declarou.

 

Confira a entrevista ====> http://tvg.globo.com/programas/programa-do-jo/O-Programa/noticia/2013/05/marisa-lajolo-comenta-acusacao-de-racismo-nos-livros-de-monteiro-lobato.html

Anúncios

A PALAVRA E A MEMÓRIA: incursões autobiográficas sobre a infância de Jean-Paul Sartre

404258_249265648486408_1916670289_n

Le mots (As palavras), livro escrito por Jean-Paul Sartre em 1964 na França, faz parte de uma gama de textos que conveniente se enquadra dentro do gênero autobiografia e narra a história do pequeno Sartre e sua descoberta diante os livros e a palavra. Essa incursão escriturística engendra uma forma de narrativa que busca relatar a história de si mesmo ora tratando a si mesmo como um eu distante, porém transparente; ora como um outro que se vê no espelho, a dialogar com esse outro que é eu, mas de natureza cinzenta, irreconhecível, tão distante quanto o tempo existente entre o fato e o momento em eu se narra.

O esforço hercúleo de um escritor diante da palavra requer a sinuosa tarefa da escolha. Escrever põe o escritor diante de um espelho e, como todo espelho, a reconhecer-se frente à distorção da imagem espelhada. O desejo de escrever-se, tornar-se palavra, faz com que a escritura seja tão complexa, pois, senão nascedouro, pelo menos reduto na qual deságuam os afluentes do ser. Assim, tecer a história de si mesmo, requer um empreendimento contra o tempo e a investidura da palavra enquanto memória, ou a tentativa de apalpar esse fragmento perdido em um descontínuo temporal chamado existência.

Em Le mots, Sartre (1991) narra sua história cronologicamente, apresentando ao leitor, em sua primeira parte, o ventre no qual fora gerado e as teias genealógicas com que fora presenteado quando do seu nascimento. Claramente duas imagens foram destaques na infância do jovem Sartre: a figura desconhecida de Jean-Baptiste Sartre, cujas informações não passam de profanações ao que um dia fora seu pai; e Charles Schweitzer, avô materno que assumira para Sartre o papel do pai que não conhecera e que não pudera aprender amar, apenas a odiá-lo e, assim, diz o escritor: “[…] deixei atrás de mim um jovem morto que não teve tempo de ser meu pai” (SARTRE, 1991, p. 16). Seu distanciamento não diz respeito apenas ao fato de tão logo nascera o filho, Jean-Baptiste Sartre tenha se afastado por causa da doença que adquirira quando soldado na guerra, mas porque o que assim o descreviam: “Meu pai tivera a gentileza de morrer erradamente: minha avó repetia que ele se furtara às suas obrigações; meu avô, justamente orgulhoso da longevidade de Schweitzer, não admitia que alguém desaparecesse aos trinta anos” (ibid. p.16), ou, quando o próprio Sartre assim se referia ao pai: “Esse pai sequer é uma sobra, sequer um olhar: ele e eu pesamos, por algum tempo, sobre a mesma terra, é só” (ibid. p.17).

Assim, a imagem que tem do pai ou a inquietação pela ausência de referentes sólidos que o pudessem creditar veracidade na imagem que formularam dele, faz com que sua infância retorne sempre à sombra da ausência de Jean-Baptiste Sartre. Obviamente que isso implica problemas mais complexos e que um bom psicanalista certamente os apontaria com precisão e segurança, mas deter-nos-emos apenas na questão da memória, visto crermos ser ela elemento mais relevante à nossa análise.

O desejo de escrever-se (inscrever-se) no texto tornando-se palavra revela o desejo de externalizar algo latente ou mesmo em iminente combustão, pois falar de si, tornar-se externo a si mesmo é um recurso que exige do escritor acordar antigos réus condenados e juízes sonolentos a fim de pôr ordem nos ressentimentos, alimentar o que de bom ainda se guarda. É uma forma de fazer justiça à imagem do outro que em si habita, quando não uma tentativa de entender o caminho que o conduziu até as premissas do desejo que o motivou ao retorno, tal qual Ferreira Gullar em Poema Sujo          que já inicia o poema com a palavra “turvo” apontando fundamental alicerce da (re)construção da memória. Assim, como o próprio Sartre nos indica, a imagem do pai é uma imagem que transita mais do Outro em direção a ele que o inverso. Portanto, aqui o próprio modo de narrar do escritor nos é mote para pensarmos a influência do outro na composição de quem somos, sucedendo a isso, o quanto o outro é modelador das memórias que guardados.

Lembremos, então, de Henri Bergson (2006) ao defender que a imagem guardada na memória seria uma espécie de réplica daquilo que de fato a gerou, isto é, defende a impenetrabilidade de vestígios externos à memória, negando o fator social (o Outro) na elaboração das memórias, assim, para este autor, as memórias estavam alocadas na duração, entendida pelo filósofo como a conservação integral da memória. Obviamente, que a passagem de Sartre poria em terra essa afirmação de Bergson não fosse o fato de que muitos outros autores já o fizeram das mais variadas formas. Enfim, Sartre sequer convivera com o pai, mas dele possui lembranças. O aparente paradoxo é explicado pelo simples fato de que, a lacuna produzida pela ausência do pai em sua vida fora preenchida pelas narrativas contadas por outrem e assumidas pelo escritor como sendo as suas. Para o leitor de Les mots, o próprio escritor se encarrega de ponderar essa questão:

 O que acabo de escrever é falso. Verdadeiro. Nem verdadeiro nem falso, como tudo o que se escreve sobre os loucos, sobre os homens. Relatei os fatos com a exatidão que a minha memória permitiu. Mas até que ponto creio em meu delírio? Esta é a questão fundamental e no entanto não sou eu quem decide sobre ela. (SARTRE, 1991, p.51)

Sartre, sabiamente, nos põe um problema que, para melhor o esclarecermos, recorremos a Philippe Lejeune eludações para o que fora apresentado pelo filósofo. Veja que ao término na citação Sartre, ao falar da veracidade do que é narrado, diz: “não sou eu quem decide sobre ela”. Então, quem decide? Lejeune (2008), em O pacto autobiográfico, desenvolve o argumento de que, em uma autobiografia, seria necessário um pacto entre o autor e o leitor. Primeiro por parte do autor em comprometer-se uma identificação entre autor-narrador-personagem; segundo, em o leitor manter-se crente na palavra do autor.

 Na autobiografia, é indispensável que o pacto referencial seja firmado e que ele seja cumprido: mas não é necessário que o resultado seja de ordem da estrita semelhança. O pacto referencial pode ser, segundo os critérios do leitor, mal cumprido, sem que o valor referencial do texto desapareça (ao contrário), o que não é o caso das narrativas históricas ou jornalísticas. (LEJEUNE, 2008, p.37)

 Aqui, além de norteadores para a discussão, Lejeune insere inúmeras questões delicadas, mas que são relativizadas visto ser uma teoria ainda em construção. O que entra em questão é a cumplicidade do autor e do leitor durante a leitura. Se a noção de pacto, por um lado, desperta a insegurança de pensar a voz do autor como uma voz carregada de verdade e não de verossimilhança, por outro permite pensar o texto como um campo de negociações, ora não estaríamos sempre a acreditar no autor, mesmo que por um instante? Se a possível “mentira” do texto literário fosse requisito de afastá-lo ou não da leitura, talvez não tivéssemos tantas e boas obras, vez que nem mesmo o realismo permitiu tamanha descrição da realidade, quando não uma mera sensação de realismo. Tratar com tamanho rigor a capacidade de retratar o real objetivamente fora uma preocupação platônica, hoje, a pergunta seria: não seria tudo uma grande ficção? Talvez realmente o fosse, mas preferimos acreditar que há medidas de real e não apenas ressacas de ficção.

Benveniste (2008) dizia em Problemas de linguística geral que a imagem do eu era formada, no discurso, pela imagem que tenho de mim mesmo, a imagem que o outro tem de mim e a imagem que eu quero que o outro tenha mim. No caminho conduzido pelo pensamento do linguística, é possível perceber que a fala autobiográfica de Sartre é importante não apenas por descrever a imagem que o próprio escritor tem de si mesmo, mas por conter nela indícios de como ele percebia o outro, e mesmo, por meio das escolhas impetradas por ela para compor a narrativa, como esse escritor percebia o olhar do outro. Assim, se isso constituiria uma grande ficção por não espelhar uma realidade, também não deixaria de ser uma verdadeira incursão de um sujeito que por meio da palavra busca aproximar-se da imagem de si.

Minha verdade, meu caráter e meu nome estavam nas mãos dos adultos; aprendera a ver-me com os olhos deles; eu era criança, este monstro que eles fabricam com suas queixas. Ausentes, deixavam atrás de si olhar, misturado à luz; eu corria, eu saltava através deste olhar que conservava minha natureza de neto modelo, que continuava a me oferecer meus brinquedos e o universo. Em minha bela redoma, em minha alma, meus pensamentos giravam, qualquer pessoa podia seguir seus manejos: nenhum canto de sombra. No entanto, sem palavras sem forma nem consistência, diluída nesta inocente transparência, uma transparente certeza estragava tudo: eu era um impostor. Como representar a comédia sem a gente saber que a representa? Elas se denunciam por si mesmas, as claras aparências ensolaradas que compunham minha personagem: por uma falta de ser que eu não podia compreender inteiramente nem deixar de sentir. (SARTRE, 1991, p. 61-62)

Essa ausência de reconhecimento do narrador sartreano para com a imagem que vê diante de si representa justamente a característica deste gênero que intenta narrar a si: a compreensão da própria vida. O leitor atento perceberá que do início ao fim, desde quando nos apresenta Charles e Louise Schweitzer, ao descrever seus primeiros encontros com os livros do avô, as leituras que a mãe realizava noturnamente, as decepções que tivera quando ingressante na escola, as repetidas referências a Flaubert, Victor Hugo, Goethe e Baudelaire, nada mais revela do que o escritor tentando compreender seu ofício e os motivos que o trouxeram até ali, deixando claro que “foi nos livros que encontrei o universo” (ibid, p.38). Com a mesma certeza que deseja narrar a sua história, Sartre duvida do que é escrito por ele. Destarte, o uso das interrogações põe a dúvida como centro da narrativa e, quando não seguidas de respostas nebulosas, antecedem grandes lacunas, metáforas da cisão do eu que divide a si mesmo em vários espaços, uns conhecidos, outros a emergirem de algum lugar.

Assim, falar da consistência do que é lembrado, vez que as próprios escritores ao narrarem suas histórias (ou estórias) de vida ali não sabem distinguir os limites que a imaginação impetre, demanda a criação de um outro de si mesmo, existente somente na escrita, pois para além do texto o que existe são inúmeros outros da palavra. A identificação entre autor-narrador-personagem só seria possível se pensarmos que essas três categorias como ficcionais, pois na ficção é possível determinar em certo grau as formas assumidas por cada um, visto estarem limitados pelo tempo e espaço da escritura, assim suas relações são limitadas, diferente do sujeito “real” que está a todo instante nesse jogo com o Outro, a lembrar e a esquecer de si, pois o esquecimento é de tão grande valor quanto a lembrança, já provara Borges em Funes, o memorioso.

Sartre, na trajetória de sua vida, descobre-se uma criança importante, porque cheia de mimos; até sentir-se deslocado pela presença do outro que põe a sua existência em conflito, porque agora precisaria medir forças para mostrar seu valor. A busca por compreender a si mesmo intensificara-se quando adulto, mas desde garoto demonstrava preocupação por não reconhecer-se: “Minhas primeiras histórias não foram mais do que a repetição do Pássaro Azul, do gato de Botas, dos contos de Maurice Bouchor. Narravam-se sozinhas […]” (ibid. p.83). Daí, possivelmente, as raízes de sua filosofia existencialista. No entanto, o que ressaltamos é que assim como o escritor regressa a um ponto na infância para compreender a si mesmo, é necessário retornar com ele para compreender o nascedouro de seu pensamento, de sua ética, de sua estética, parafraseando certo ditado popular, é preciso que tu me diga a história de sua vida para que eu te diga o porquê de seres assim. Desta maneira, vasculhar as biografias e as autobiografias de autores como Sartre, para além das problemáticas suscitadas pela memória/esquecimento, é válido para  entendermos como esse filósofo pensava o mundo, seu lugar de fala, suas palavras.

REFERÊNCIAS

BENVENISTE, Emile. Problemas de linguística geral. 5.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

COELHO PACE, Ana Amelia Barros. Lendo e escrevendo sobre o pacto autobiográfico de Philippe Lejeune. Dissertação (Mestrado em Letras) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

GARCIA, Celina Fontenete. Poética do memorialismo: diálogos com Philippe Lejeune. Fortaleza: 7 Sóis, 2006.

LEJEUNE, Philippe. El pacto autobiográfico y otros estudios. Madrid: Megazul-Endymion., s/d.

______. O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet. Trad. de Jovita Maria Gerheim Noronha. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.

SARTRE, Jean-Paul. As palavras. Trad. de Jaime Guinsburg. 6.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.


Francisco Hudson Pereira da Silva é mestrando de letras – teoria da literatura pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

Licença Creative Commons
O trabalho A PALAVRA E A MEMÓRIA: incursões autobiográficas sobre a infância de Jean-Paul Sartre de Francisco Hudson Pereira da Silva foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em https://teoliteraria.wordpress.com/2013/05/15/a-palavra-e-a-memoria-incursoes-autobiograficas-sobre-a-infancia-de-jean-paul-sartre/.

REVISTA DESASSOSSEGO (USP) – CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO

Sem título

 

“- MANDARIM, MEU AMIGO, NÃO É UMA PALAVRA CHINESA, E NINGUÉM A ENTENDE NA CHINA. É O NOME QUE OS NAVEGADORES DO SEU PAÍS, DO SEU BELO PAÍS, NO SÉCULO XVI, DERAM AOS FUNCIONÁRIOS CHINESES” – EÇA DE QUEIRÓS: Há 500 anos, os navegadores portugueses chegaram à China. Aproveitando a efeméride, o tema do nº. 10 da Revista Desassossego será “ORIENTALISMOS” em suas seguintes derivas: estéticas, ficção, poesia, teatro, interculturalidades, (pós) colonialismos e narrativas de viagem.
A edição terá também uma VÁRIA com artigos de tema livre relacionados com literatura e cultura portuguesas.

PRAZO PARA ENTREGA: Os artigos e os textos ficcionais serão recebidos impreterivelmente até 16 de setembro de 2013. A publicação está prevista para dezembro de 2013.

Ressaltamos que todos os textos devem ser enviados no formato Word e de acordo com as normas de publicação da revista e devem ser submetidos pelo site (é necessário o cadastro do usuário). Os artigos serão avaliados pelo sistema de duplo cego (double blind review). Os que não obedecerem às normas serão devolvidos. Quaisquer dúvidas, basta entrar em contato através do e-mail desassossego@usp.br.

ARTIGOS fora da temática do dossiê também são bem-vindos!

Lembramos ainda que, por determinação da CAPES, a revista exige dos autores vínculo ativo com programa de pós-graduação para mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos, ou ser egresso de até três anos.

Atenciosamente,

Os editores,

Bruno Anselmi Matangrano e Leonardo de Barros Sasaki.

QUALIS = B4

Mais informações: http://www.revistas.usp.br/desassossego/about/editorialPolicies#custom-0

O DOM CASMURRO: SUA CASA, SEU COSMOS

381813_192753190818521_230294759_nEscrita em 1899, a obra Dom Casmurro constitui, juntamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891), a fase madura de Machado de Assis. Ela traz um narrador autodiegético[1], Bento Santiago, que, ao escrever as próprias reminiscências, busca “[…] atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência” (Assis, 2002. p. 14). Dom Casmurro apresenta um discurso memorialístico, no qual Bento Santiago, o casmurro, enfadado de sua solidão, decide reviver o que não viveu, especialmente seu relacionamento amoroso com Capitu.

Neste breve ensaio, a leitura do romance é erigida sobre o assomo da metáfora da casa, como se depreende da passagem a seguir, na qual Bento Santiago concebe a alma como uma esfera segmentada,

[…] uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras, sem janelas ou com poucas e gradeadas, à semelhança de conventos e prisões. Outrossim, capelas e bazares, simples alpendres ou paços suntuosos. 

Não sei o que era a minha (ASSIS, 2002. p. 14).

 A metáfora da casa propicia-nos adentrar no cosmos interno de Bento Santiago, na medida em que o narrador complexo, instável e de identidade segmentada se assemelha à repartição de uma casa.

Bento Santiago era um sujeito abastado que vivia num sobrado. Gilberto Freyre afirma que os burgueses do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX raramente se ausentavam dos domínios do sobrado, como forma de permanecerem distinguíveis da grande massa. Deste modo, essa cultura do enclausuramento foi absorvida por Bento Santiago e não é possível delimitar, com exatidão, os limites que separam casa e homem.

Logo no início da narrativa, Bento Santiago deixa transparecer o desejo de atar as duas pontas de sua vida, reproduzindo “[…] no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu” (p. 14). Embora tenha conseguido reconstruir a casa de Matacavalos, Santiago perde a si mesmo e esta perda é irreparável. Não se tratava apenas de reconstruir uma casa, mas de reconstruir o próprio eu.

A casa está inegavelmente ligada à vivência de Bento Santiago. Poucas são as passagens do romance em que Santiago se desprende da casa. E quando dizemos casa, não nos referimos somente à sua casa da Rua de Matacavalos, mas todas as casas de sua vida: a casa de Capitu; a casa de Sancha; o próprio seminário; a casa do Engenho Novo; as casas de ópera; a casa do Manduca; e mesmo as casas que permeavam seus devaneios, como aquela que planejou construir para viver com Capitu.

Lembremos que o romance de Santiago e Capitu acontece em uma casa. No capítulo XII, A varanda, Bentinho é surpreendido por sensações até então negligenciadas, mas que o tomam de assalto e ele se dá conta de que ama Capitu e é amado por ela. Toda a carga sentimental está ali, na varanda. Bentinho, atordoado, se atém aos detalhes, aos pormenores da varanda:

Tijolos que pisei e repisei naquela tarde, colunas amareladas que me passastes à direita ou à esquerda, segundo eu ia ou vinha, em vós me ficou a melhor parte da crise, a sensação de um gozo novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios, e me derramava não sei que bálsamo interior (p. 27).

Bento Santiago confunde-se com a própria casa. Não é de surpreender que impute a José Dias a alcunha de agregado, como um quarto que se agregue a uma casa. E a figura de José Dias representava para Bento Santiago vestígios de uma casa, tanto que nos passeios públicos José Dias acompanhava o menino, ou seja, Bentinho nunca estava só, levava a casa consigo.

Como já dissemos, Dom Casmurro é um romance de sentidos implícitos. Curiosamente, a morte de Escobar, que é um acontecimento importante na narrativa, se lido nas entrelinhas, corrobora a tese de que Bento Santiago metaforicamente simboliza a casa. No capítulo A Catástrofe, que narra o afogamento de Escobar, lê-se: “Escobar meteu-se a nadar, como usava fazer, arriscou-se um pouco mais fora que de costume, apesar do mar bravio, foi enrolado e morreu” (p. 159). Esse fragmento da narrativa permite-nos afirmar que Escobar era o avesso de Bento Santiago, na medida em que aquele é um esportista, dado a aventurar-se fora do âmbito doméstico, enquanto este permanece sempre atrelado à casa. Mas, se formos mais fundo na questão, essa dicotomia revela um elemento crucial na análise psicológica de Bento Santiago: o ciúme. Se, como dissemos, Bento Santiago representa a casa e Capitu a natureza, o mar, nosso protagonista sente-se enciumado ao ver seu amigo Escobar mergulhar no mar, apoderar-se de Capitu.

A alma de Bentinho é segmentada como uma casa. O conflito interno da personagem que ora tende para o Bentinho, ora para o Casmurro ensimesmado, é o mesmo que uma casa de grandes janelas que com o passar do tempo se torna obscura e repleta de mofo.

Não é de se estranhar que Bento Santiago decida começar a narração de sua história a partir do episódio em que, escondido atrás da porta, ouve a terrível conversa sobre a sua ida para o seminário.

Mas, como explicar o apego demasiado de Bento Santiago a casa? Para Gaston Bachelard (2008), a casa fornece ao individuo um abrigo do mundo e é nosso primeiro universo, nosso primeiro cosmos. Dessa forma, o cosmos interior de Bento Santiago está enraizado na casa. Bentinho sempre esteve envolto na atmosfera protetora de uma casa: com sua mãe, D. Glória, que o protegia de tal forma que, ao morrer, Santiago atribuiu-lhe o adjetivo de “santa”; no seminário, onde conheceu Escobar e este abriu “[…] a alma toda, desde a porta da rua até ao fundo do quintal” (ASSIS, 2002. p. 87); com Capitu, companheira amorosa e com quem dividiu a felicidade na casa da Tijuca; e na casa do Engenho Novo, onde saboreou a casmurrice, a solidão, a lacuna de si mesmo.

Bentinho, como disse José Dias, vivia “[…] metido nos cantos com a filha do Tartarua […]” (p. 16). O canto, para Bachelard é um refúgio, uma negação do mundo. Bentinho e Capitu viviam metidos nos cantos para escapar do mundo. Estavam ambos protegidos em uma concha até que o mundo espiou-lhes e trouxe o perigo da separação. A casa da Rua de Matacavalos está de tal forma enraizada em Bento Santiago que sair de seus domínios significava sofrer a hostilidade do mundo, sem D. Glória e Capitu para lhe proteger. Por isso a possibilidade de mudança para o seminário aterrorizou tanto Bentinho.

Sendo a casa nosso primeiro cosmos, sua imagem e significado refletem-se ao longo da nossa existência. Quando Bento Santiago almeja reconstruir no Engenho Novo a casa de Matacavalos ele está a procura de um laço que se desfez e “É exatamente porque as lembranças das antigas moradas são revividas como devaneios que as moradas do passado são imperecíveis dentro de nós” (BACHELARD, 2008. p. 26). As evocações do passado, as reminiscências são metáforas que Bento Santiago utiliza como forma de retornar ao reduto inicial: a casa da Rua de Matacavalos e o amor de Capitu.

Deste modo, percebemos que o espaço é sobrepujante ao tempo. Bento Santiago não pretende estender a casa, mas possuí-la novamente. Para Bachelard,

Por vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo que se conhece apenas uma série de fixações nos espaços da estabilidade do ser, de um ser que não quer passar no tempo; que no próprio passado, quando sai em busca do tempo perdido, quer “suspender” o vôo do tempo. Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. É essa a função do espaço. […] Aqui o espaço é tudo, pois o tempo já não anima a memória. […] Mais urgente que a determinação das datas é, para o conhecimento da intimidade, a localização nos espaços da nossa intimidade (p. 29-30).

Para Bento Santiago, o signo da casa tem grande significado. Mas a casa é um signo dialético. E mesmo sendo dialético é indelével. Curiosamente, Bento Santiago deixa que a casa da Rua de Matacavalos seja demolida. A razão que ele dá é a seguinte:

[…] logo que minha mãe morreu, querendo ir para lá, fiz primeiro uma longa visita de inspeção por alguns dias, e toda a casa me desconheceu. No quintal a aroeira e a pitangueira, o poço, a caçamba velha e o lavadouro, nada sabiam de mim. A casuarina era a mesma que eu deixara ao fundo, mas o tronco, em vez de reto, como outrora, tinha agora um ar de ponto de interrogação; naturalmente pasmava do intruso. Corri os olhos pelo ar, buscando algum pensamento que ali deixasse, e não achei nenhum. Ao contrário, a ramagem começou a sussurrar alguma coisa que não entendi logo, e parece que era a cantiga das manhãs novas. Ao pé dessa música sonora e jovial, ouvi também o grunhir de porcos, espécie de troça concentrada e filosófica.

Tudo me era estranho e adverso (ASSIS, 2002. p. 179-180).

Ao perceber que a casa não o reconhece, Bento Santiago obtém a prova definitiva de que já não é mais o mesmo homem, que tornara-se Casmurro. Essa proximidade de Bento Santiago com a casa é tão estreita, que ele confere aos objetos, animais e flora uma envergadura poética, uma carga sentimental de ressonância inimaginável para o nosso narrador. Deparar-se com o estranhamento da casa significa deparar-se com a perda da própria identidade, pois o inconsciente de Bento Santiago estava “venturosamente instalado” (BACHELARD, 2008. p. 30) na casa. Bento Santiago é uma personagem solitária, perdida em seus devaneios, em seu universo onírico. A casa é, para Bento Santiago, o seu próprio cosmos.

 

 

REFERÊNCIAS

 

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 39 ed. São Paulo: Ática, 2002.

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. 2 ed.São Paulo: Martins Fontes, 2008. pp. 1-85.

GENETTE, Gérard. Discurso da Narrativa. Tradução de Fernando Cabral Martins. Lisboa: Vega Universidade, 1976.


Notas

[1] Conceito de Gerard Genette, para o qual esse tipo de narrador – que é também a personagem central da narrativa – narra suas próprias experiências.
Jurema da Silva Araújo é mestranda em Letras pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI), graduada em Letras Português pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Organizou em 2012 em parceria com a Prof. Dr. Algemira de Macedo Mendes, o livro Diálogos de gênero e representações literárias, publicado pela EdUFPI. 
 

Licença Creative Commons
O trabalho O Dom Casmurro: sua casa, seu cosmos de Jurema da Silva Araújo foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em https://teoliteraria.wordpress.com/2013/05/11/o-dom-casmurro…asa-seu-cosmos/ ‎.

4º SILIC – Simpósio de Literatura Brasileira Contemporânea e III Seminário de Integração de Pesquisa do Programa de Pós-graduação em Estudos Literários da UNIR

DSC03593

As intermitências da crise

Período de realização: 21, 22, 23 e 24 de agosto de 2013
Local: Universidade Federal de Rondônia
Cidade: Vilhena 
Contatogepec_unirvha@yahoo.com.br
 
Crise é uma palavra-maná que parece definir com propriedade a condição do presente. Interessa-nos, entretanto, não as asserções derivadas da aparência, e sim interrogar esse topos para fazer ver o que há de atópico nele. Daí a ideia de palavra-maná. Segundo Roland Barthes, uma palavra “imóvel e carregada, em deriva, nunca instalada”.  Antes de confirmá-la, cumpre, portanto, reconhecer o que acontece no momento mesmo em que a crise é proferida. A hipótese é de que o discurso em loop da crise surge quase sempre para enunciar um estado de coisas que, de modo subjacente, demonstra que algo de indistinto, de intempestivo, acontece. A solicitação do GEPŒC feita a estudiosos de literatura contemporânea vai nesse sentido. Assim como ocorre desde o primeiro simpósio, a tentativa é a de não estabelecer uma relação de concordância ou discordância com o já dado, mas refletir sobre esses discursos a partir das obras e do campo literário em que estão inseridas. Este é o modo escolhido para pensar na nossa própria condição de grupo que atua num campo em que constantemente a legitimidade de sua existência – e importância – é colocada em pauta. O que se solicita a um grupo que estuda literatura contemporânea no interior do país? Cabe a nós fortalecer ou desconstruir a ideia de interior? Vocábulos como impureza, questão, aporias, evocados nos outros simpósios, e agora “crise”, almejam demonstrar a nossa disposição de abertura, de elaborar um pensamento calcado tanto na comunhão como na diferença.
 
DATAS IMPORTANTES
 
Prazo para inscrições de trabalhos em Simpósios temáticos: 22 de julho de 2013
Divulgação dos trabalhos aprovados e emissão de cartas de aceite: até 29 de julho de 2013
Prazo para envio de resumo expandido ou texto completo para publicação nos Anais: 05 de agosto de 2013
 
 

PROGRAMA

 
21 de agosto
 
Noite
 
18h30 – Entrega de material
19h – Abertura do simpósio
20h – Conferência de abertura: (a definir)
Mediação: Profa. Dra. Lilian Reichert Coelho (UNIR/GEPŒC)
21h30 – Apresentação teatral: Banzo, com o ator Celso Francisco Gayoso (UNIR/Departamento de Jornalismo)
Coordenação: Profa. Dra. Milena Cláudia Magalhães Santos Guidio (UNIR/GEPŒC)
 
22 de agosto
 
Manhã
 
9h – Mesa-redonda: Um aspecto da crise: políticas de fomento à pesquisa para as Ciências Humanas e Sociais
Profa. Dra. Maria Berenice Alho da Costa Tourinho (Reitora UNIR)
Prof. Dr. Ari Miguel Teixeira Ott (Pró-Reitor de Pesquisa da UNIR)
Profa. Dra. Lilian Reichert Coelho (UNIR/GEPŒC)
 
Tarde
 
14h – Simpósios temáticos
16h – Seminário Interno do GEPŒC
Participação da Profa. Dra. Walnice Aparecida Matos Vilalva (PPGEL/UNEMAT) e Profa. Dra. Simone de Jesus Padilha (UFMT) como debatedoras
 
Noite
 
19h – Conferência: Imagens do fim
Prof. Dr. Marcos Siscar (Unicamp)
20h30 – Conferência: “A Noite suave das coisas”: as Artes e o discurso da crise
Prof. Dr. Evando Nascimento (UFJF)
Mediação: Profa. Dra. Milena Cláudia Magalhães Santos Guidio (UNIR/GEPŒC)
22h – Lançamento de livros
 
23 de agosto
 
Manhã
 
8h – Simpósios temáticos
10h – Cena de conversa 1: Escritores: Evando Nascimento e Marcos Siscar
Debatedores: Dariete Cruz Gomes Saldanha (Mestranda em Est. Literários UNIR)
Mariana Marques Ferreira (Mestre em Letras UNIR)
Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes (prof. Ms.  UNESC/doutorando UNESP/SJRP-UNIR)
 
Tarde
 
14h – Miniconferências:
 (In)certos discursos sobre a leitura literária na escola
Profa. Dra. Marinalva Vieira Barbosa (UFTM)
Práticas pedagógicas com textos literários na perspectiva bakhtiniana
Profa. Dra. Simone de Jesus Padilha (UFMT)
Problemas e desafios da formação continuada de professor
Profa. Dra. Maria Cândida Müller (UNIR)
Mediador: Prof. Ms. Leandro Wallace Menegolo (UNIR/GEPŒC)
 
Noite
 
19h00 – Conferência de encerramento: Quais as dimensões da crítica atual?
Prof. Dr. Luiz Costa Lima (PUC/ Rio de Janeiro)
20h30 – Cena de conversa 2:  Mímesis: Re(a)presentação de um conceito
Prof. Dr. Marcio Renato Pinheiro da Silva (UFRN)
Mediadora: Profa. Ms. Rosana Nunes Alencar (UNIR/GEPŒC)
 
 24 de agosto
 
Manhã
10h – Edição especial do projeto de Extensão “Comparsarias Literárias: leitura e discussão da prosa e da poesia contemporâneas”
Livro: a definir
Convidado: Prof. Ms. Rubens Vaz Cavalcante (UNIR/ Porto Velho)
Mediadora: Profa. Ms. Sandra Aparecida Fernandes Lopes Ferrari (IFRO/GEPŒC)
 
Tarde
14h – Edição Especial do Projeto de Extensão “Quarto 237 – Cinema, Universidade, Comunidade”
Filme: Linha de passe (2008), de Walter Salles e Daniela Thomas
Convidado: Prof. Dr. Marcio Renato Pinheiro da Silva (UFRN)
Mediadora: Profa. Dra. Lilian Reichert Coelho (UNIR/GEPŒC) – Coordenadora do Projeto de Extensão
 
 
PROGRAMAÇÃO DO III SEMINÁRIO DE INTEGRAÇÃO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LITERÁRIOS DA UNIR
 
21 de agosto
 
Tarde
 
14h –  PROJETOS DE PESQUISA:
Capitu e Ivan: diferentes olhares na travessia entre literatura e cinema
Pesquisadora: Maria do Céu Vaz
O universo representativo da personagem ficcional no romance “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago.  
Pesquisadora: Maria da Saúde Gomes da Silva
A estetização do drama e o entrecruzamento de linguagens em Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato
Pesquisador: Francisco Elieudo Buriti de Sousa
 
PROFESSOR CONVIDADO: Prof. Dr. Marcio Renato Pinheiro da Silva
MEDIAÇÃO: Profa. Dra. Milena Cláudia Magalhães Santos Guidio (UNIR/GEPŒC)
 
22 de agosto
 
Tarde14h – PROJETOS DE PESQUISA:

A fluência das várias vozes da narrativa na construção do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos
Pesquisadora: Valdety Oliveira
Erotismo e permanência em Da Morte. Odes Mínimas (1980), de Hilda Hilst
Pesquisadora: Arlene Leite de Almeida
 
PROFESSOR CONVIDADO: Prof. Dr. Marcos Antonio Siscar (UNICAMP)
MEDIAÇÃO: Profa. Dra. Lilian Reichert Coelho (UNIR/GEPŒC)
 
SIMPÓSIOS TEMÁTICOS PARA INSCRIÇÃO DE COMUNICAÇÕES
– Literatura Brasileira
– Literatura Brasileira Contemporânea
– Literatura de expressões de Língua Portuguesa e estrangeira
– Comunicação e Cultura
– Educação e ensino
INFORMAÇÕES IMPORTANTES
Os valores de inscrição são:
Aluno de graduação: R$40,00
Aluno de pós-graduação: R$50,00
Demais categorias: R$60,00
 
O participante pode inscrever-se com apresentação de trabalho e como ouvinte.  O interessado deve inscrever-se em uma das sessões dos simpósios temáticos especificados acima.
 
Para a sessão de simpósios temáticos, o SILIC aceita trabalhos desenvolvidos por alunos de graduação e pós-graduação em todas as áreas de Letras (Língua Portuguesa, Línguas estrangeiras, Literaturas, Teoria literária, Ensino de língua, Ensino de literatura etc.) ou ainda desenvolvidas em outros cursos de áreas afins (Pedagogia, Psicologia, História, etc.).
  • Cada comunicação terá 25 minutos de duração: 20 para apresentação e 5 para debate.
  • Cada participante inscrito poderá submeter apenas um trabalho, do qual é autor ou coautor.
  • Autor de trabalho individual ou de trabalho em coautoria só terá direito a certificado se efetuar sua inscrição no evento e efetivamente apresentar o trabalho na sessão.
  • NÃO será permitida a apresentação de trabalho de autor ausente.
  • Os trabalhos apresentados que enviarem texto completo serão publicados nos Anais do evento.
Normas para submissão do trabalho:
a) O autor do trabalho pode escolher entre enviar resumo expandido ou texto completo. Independentemente da escolha, um resumo de, no máximo, 300 palavras deve vir acompanhado.
b) O resumo de no máximo 300 palavras deve ter o seguinte formato, segundo a NBR 6028 (ABNT, 2003): configuração da página A4 – margem superior e direita 2,0 cm, margem inferior e esquerda 3,0 cm, Fonte: Times New Roman, tamanho 12, espaço entre linhas simples, justificado; apresentação de até 3 palavras-chave. Preferencialmente, o resumo deve ser composto de uma sequência de frases concisas, afirmativas e não de enumeração de tópicos. Recomenda-se o uso de parágrafo único. A primeira frase deve ser significativa, explicando o tema principal. A seguir, deve-se indicar os objetivos, a metodologia, os resultados e as conclusões,  usando-se o verbo na voz ativa e na 3.ª pessoa do singular. As palavras-chave, em número de três, devem figurar logo abaixo do texto do resumo, separadas entre si por vírgula e finalizadas por ponto final.
 
c) O resumo expandido deve ter entre 850 e 1000 palavras, tendo o seguinte formato: configuração da página A4 – margem superior e direita 2,0 cm, margem inferior e esquerda 3,0 cm; fonte Times New Roman; tamanho 12; espaço entre linhas simples, justificado. Preferencialmente, o resumo expandido deve ser construído da mesma maneira que o resumo básico (tema delimitado, objetivos, metodologia, resultados e conclusões). Entretanto, na modalidade expandida, o estudante precisa detalhar mais os elementos constitutivos do resumo, expostos anteriormente.
d) Os trabalhos completos devem conter, no máximo, 16 páginas, no seguinte formato: configuração da página A4, margem superior e direita 2,0 cm, margem inferior e esquerda 3,0 cm, fonte Times New Roman, tamanho 12, espaço entre linhas 1,5, justificado.
– O título do trabalho deverá estar em caixa alta e em negrito, centralizado na página.
–  A autoria do trabalho (nome completo) deverá vir alinhada à direita e em itálico, com as iniciais maiúsculas, seguida do nome da sigla da Universidade a que pertence.
– As citações com até três linhas devem integrar o corpo do texto, usando-se “aspas” com o mesmo tipo de fonte do texto normal. As chamadas de citação podem ser feitas de duas maneiras: 1 – com o sobrenome do autor fora dos parênteses, apenas com a inicial maiúscula, devendo vir entre parênteses o ano da publicação e a página; 2 – devem ser assinaladas entre parênteses, constando sobrenome do autor em letras maiúsculas, ano de publicação da obra consultada e número das páginas.
– As citações a partir de quatro linhas devem estar blocadas (novo parágrafo, recuado em 4 cm e fonte Times New Roman 10). Nesse caso, as referências devem constar no corpo do texto, entre parênteses, com nome do autor em letras maiúsculas, ano de publicação da obra consultada e páginas.
– Notas de rodapé, quando necessário, devem possuir caráter explicativo/ complementar e estas devem ser numeradas em algarismos arábicos e em sequência.
 – As referências bibliográficas deverão constar no final do texto, seguindo a norma 6023 (ABNT, 2003), dispostas em ordem alfabética por sobrenome do autor.
– Com exceção da primeira, todas as outras laudas deverão ter a numeração de página colocada no canto superior esquerdo, a 2 cm da borda da folha.
 
– Prazo final para envio de proposta de comunicação para simpósio temático(com envio do resumo expandido ou texto completo): 22 de julho de 2013.
– Em caso de dúvida, entrar em contato com a Comissão Organizadora do Simpósio pelo e-mail: gepec_unirvha@yahoo.com.br
 
CONTATO
Em caso de dúvida, entre em contato com a comissão pelo email: gepec_unirvha@yahoo.com.br
 
COMISSÃO
 
Realização
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
Departamento Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários – DELL
Mestrado Acadêmico em Estudos Literários
 
Organização
Grupo de Pesquisa em Poética Brasileira Contemporânea – GEPŒC
 
Comissão Organizadora
Milena Cláudia Magalhães Santos Guidio – GEPŒC/UNIR
Lilian Reichert Coelho – GEPŒC/ UNIR
Cynthia de Cássia dos Santos Barra – PPGEL/ UNIR
Leandro Wallace Menegolo – GEPŒC/UNIR
Rosana Nunes Alencar – GEPŒC/UNIR Vilhena
Sandra Aparecida Fernandes Lopes Ferrari- GEPŒC/IFRO/Vilhena
Walnice Aparecida Matos Vilalva  – PPGEL/UNEMAT
 
COMITÊ CIENTÍFICO
Arnaldo Franco Junior – UNESP
Lilian Reichert Coelho – UNIR
Madalena Aparecida Machado – UNEMAT
Marcio Renato Pinheiro da Silva – UFRN
Marcos Antonio Siscar – UNICAMP
Milena Cláudia Magalhães Santos Guidio – UNIR
Rosana Nunes Alencar – UNIR
Sandra Aparecida Fernandes Lopes Ferrari – IFRO
Vera Lúcia Maquêa – UNEMAT

MAIS INFORMAÇÕES: http://gepoec.blogspot.com.br

Literatura do subúrbio do mundo?

Joao-Cezar-de-CastroEstratégias, não essências
No artigo deste mês, proponho ao leitor uma reflexão que permita resgatar afinidades estruturais caracterizadoras da circunstância cultural latino-americana.

(Ou, para dizê-lo com sabor teórico, pretendo evidenciar elementos definidores das literaturas não hegemônicas — e isso em qualquer latitude, bem entendido.)

De fato, tal preocupação define o projeto desta coluna. As vicissitudes latino-americanas não são únicas, tampouco unívocas, mas, pelo contrário, relacionam-se a dilemas similares aos de outras regiões culturais. Trata-se, em primeiro lugar, de reconstruir o processo mais amplo de mundialização, dominante a partir do final do século 15.

Portanto, o vocabulário ontológico de uma hipotética essência latino-americana deve ser substituído pelo propósito de identificação de procedimentos estratégicos, cuja finalidade é dar conta das crescentes assimetrias impostas pela articulação do sistema-mundo.[1]

Afinidades estruturais
Começo recordando o impasse vivido por Domingo Faustino Sarmiento em seu exílio no Chile, nos anos de 1840. Como conquistar leitores para El Progreso, jornal fundado pelo argentino, se os demais, europeus e norte-americanos, também se encontravam disponíveis e, na verdade, chegavam antes a Santiago do Chile? Compreenda-se o embaraço: Sarmiento compunha boa parte do conteúdo de El Progreso compilando artigos de veículos estrangeiros. Ora, como rivalizar com periódicos cujas notícias são sempre “mais atuais” e cujos pontos de vista costumam determinar a opinião dos leitores? Por que aguardar a seleção de notícias e a transcrição de artigos de fundo, se o público tinha acesso aos textos na língua original, dispensando a tradução?

A resposta de Sarmiento é exemplar, revelando o elemento estrutural que importa destacar:

(…) nosso diário supera os mais conhecidos da Europa e da América, pela razão muito óbvia de que, sendo um dos últimos jornais do mundo, temos à disposição, e para escolher da melhor maneira, o que os demais publicaram.[2]

Ao ler a réplica espirituosa de Sarmiento, o leitor provavelmente pensou na obra de Oswald de Andrade. E tem razão, o recurso retórico é vizinho à antropofagia, pois o que pertence ao outro se transforma em matéria própria, fundamento indispensável. Na fórmula definitiva: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”.[3]

De igual modo, na busca de afinidades estruturais, mencione-se um artigo praticamente desconhecido do jovem Gabriel García Márquez, “Possibilidades da antropofagia”. Publicado em 1950 — mesmo ano em que Oswald de Andrade concluiu A crise da filosofia messiânica, ensaio no qual aprofundou as consequências do canibalismo cultural —, o texto de García Márquez caminha na mesma direção:

A antropofagia daria origem a um novo conceito da vida. Seria o princípio de uma nova filosofia, de um novo e fecundo rumo das artes.[4]

Machado de Assis, consumado canibal do alheio, já havia intuído a mesma dimensão inventiva do gesto antropofágico, subjacente à assimilação crítica de tradições diversas. Sua crônica de A Semana, de 1° de setembro de 1895, discutiu supostos casos de canibalismo, ocorridos na Guiné e no interior de Minas Gerais. A conclusão poderia ser assinada por Oswald ou García Márquez:

Estribilhos são muletas que a gente forte deve dispensar. Quando voltar o costume da antropofagia, não há mais que trocar o “amai-vos uns aos outros”, do Evangelho, por esta doutrina: “Comei-vos uns aos outros”. Bem pensado são os dois estribilhos da civilização.[5]

Sobretudo na arte e no pensamento.

(Ou alguém ignora que a emulação é a forma mais sofisticada de elogio?)

Daí, a recorrência do tema ilumina o alvo: a necessidade de desenvolver estratégias para lidar com a presença constitutiva de um modelo, aceito como autoridade e, por isso mesmo, adotado como fonte de autodeterminação. O paradoxo implícito na sentença constitui verdadeiro Leitmotiv na definição das culturas latino-americanas.[6]

Ademais, a atitude de Sarmiento sugere que estar sempre à frente pode ser um obstáculo intransponível: quem ocupa tal posição, nada tem diante dos olhos. Pelo contrário, a posição retardatária do editor de El Progreso assegurou uma vantagem impremeditada: tudo se encontra diante de seus olhos, como itens de um generoso cardápio, cujo horizonte desenha uma nova forma de entender o pensamento e a arte em circunstâncias não hegemônicas.

Defunto autor avant la lettre, Sarmiento não precisou esperar pela campa para viver o delírio de Brás Cubas. Pressionado por condições objetivas que não podia alterar, relacionadas à concretude de relações políticas e econômicas desiguais, ele inventou uma maneira subjetiva de enfrentar o óbice, a seu modo retornando à origem dos séculos. Afinal, nas palavras de Sarmiento, no universo da estética e da filosofia, os últimos, às vezes, podem ser os primeiros, selecionando do conjunto da tradição os elementos que lhe interessam mais diretamente.

Reitere-se, porém, o elemento mais importante: trata-se de uma potência, que exige um gesto deliberado para sua atualização.

Sarmiento e Machado?
Uma pergunta se impõe: não será artificial o vínculo que proponho entre Machado e Sarmiento? Ainda hoje é quase inexistente o diálogo entre cultura brasileira e mundo hispano-americano. Contudo, a associação com o autor de Facundo é favorecida por artigo publicado na Gazeta de Notícias, em 9 de julho de 1888. Nele, Machado rememora seu (quase) encontro com o escritor.

Quando hoje contemplo o rápido progresso da nação argentina, recordo-me sempre da primeira e única vez que vi o Dr. Sarmiento, presidente que sucedeu ao General Mitre no governo da República.

Foi em 1868. Estávamos alguns amigos no Club Fluminense, Praça da Constituição, casa onde é hoje a Secretaria do Império. Eram nove horas da noite. Vimos entrar na sala do chá um homem que ali se hospedara na véspera. Não era moço; olhos grandes e inteligentes, barba raspada, um tanto cheio. Demorou-se pouco tempo; de quando em quando, olhava para nós, que o examinávamos também, sem saber quem era. Era justamente o Dr. Sarmiento, vinha dos Estados Unidos, onde representava a Confederação Argentina, e donde saíra porque acabava de ser eleito presidente da República. Tinha estado com o Imperador, e vinha de uma sessão científica. Dois ou três dias depois, seguiu para Buenos Aires.

A impressão que nos deixara esse homem foi, em verdade, profunda. Naquela visão rápida do presidente eleito pode-se dizer que nos aparecia o futuro da nação argentina.[7]

A cena é pura ficção: Machado e seus amigos olham curiosos para Sarmiento.

O argentino devolve os olhares, igualmente intrigado.

No entanto, não chegam a trocar sequer duas palavras.

Ou talvez não. Sem sabê-lo, Machado e Sarmiento dialogaram muitas vezes. Em suas obras, elaborando uma saída para tornar produtiva a circunstância política que não podiam alterar.

(Diálogos similares multiplicam-se: basta saber procurá-los.)

O subúrbio do mundo é aqui?
No século seguinte, por exemplo, outro argentino reformulou a pergunta de Sarmiento. Nos termos propostos por Ricardo Piglia, em seu estudo do romance de Witold Gombrowicz, o fantasma da secundidade retorna:

O que acontece quando se pertence a uma cultura secundária? O que acontece quando se escreve numa língua marginal? (…) Aqui Borges e Gombrowicz se aproximam. Basta pensar num dos textos fundamentais da poética borgiana: O escritor argentino e a tradição. O que quer dizer a tradição? (…) Como chegar a ser universal neste subúrbio do mundo?[8]

Essas questões — e não seria difícil acrescentar um colar de citações semelhantes — ajudam a definir o alcance da reflexão que proponho. Reitere-se que ela nada tem a ver com uma desatualizada ontologia do periférico, pois alude a uma situação concreta de desequilíbrio nas trocas culturais. Não se trata de identificar uma essência — algum fluido misterioso que tornaria o “ser periférico” singular e sempre idêntico a si mesmo —, porém de aprimorar uma estratégia necessária, dada a assimetria constitutiva das trocas simbólicas. Ao contrário do que muitos supõem, esse não é um problema tornado obsoleto pelas condições contemporâneas.

Por isso, é sintomática a insistência no mesmo campo semântico em autores os mais diversos. No conto de Milton Hatoum, Encontros na península, um jovem escritor brasileiro, em situação precária, tem a sorte de encontrar uma catalã que deseja aprender português com alguma urgência. A razão era peculiar: “Não quero falar, ela disse com firmeza. Quero ler Machado de Assis”.[9] Tratava-se de vingança tardia: Victoria Soller, a disciplinada aluna, terminara o relacionamento com o lisboeta Soares, cuja obsessão era provar a superioridade da literatura de Eça de Queirós. De forma previsível, a catalã termina por discordar do ex-amante. Surpreendente, porém, é que o diálogo com o professor reitera a dúvida de Ricardo Piglia:

Já se vê que os narradores de Machado são terríveis, irônicos, geniais. E o homem era de fato culto. Cultíssimo, verdad? O século 19 francês é pródigo de grandes prosadores. Mas como Machado de Assis pode ter surgido no subúrbio do mundo?

Mistérios de subúrbio, eu disse. Ou, quem sabe, da literatura do subúrbio(p. 105, grifos meus).

Piglia e Hatoum coincidem numa fórmula inquietante: literatura do subúrbio do mundo. Como compreendê-la?

Adapte-se, com certo otimismo, a fórmula de Sarmiento: se os últimos podem metamorfosear-se em inesperada vanguarda, a literatura do subúrbio do mundo pode transformar-se no centro da cultura?

Porém, devagar com o andor: centro de assimilação sistemática de tradições diversas. Literaturas escritas em português e espanhol sofrem de autêntica “angústia da ilegibilidade”, isto é, sua respiração artificial é o “imperativo da tradução”, condição indispensável para serem mais bem conhecidas.

(É preciso driblar o constrangedor elogio do atraso.)

Ao destacar a tensão entre culturas hegemônicas e não hegemônicas, refiro-me à existência concreta de literaturas favorecidas por determinada circunstância histórica que beneficia esta ou aquela língua na difusão de obras. A “universalidade” deste ou daquele autor depende mais do idioma no qual escreve do que da qualidade intrínseca de sua obra. Assim, se nos séculos 18 e 19 o francês foi a língua franca da utópica República das Letras, nos séculos 20 e 21 o inglês assumiu o papel de coiné do universo letrado (e digital). Autores que escrevem em inglês, ou ainda em francês, têm uma probabilidade muito maior de ocupar o centro do cânone, já que escrevem no idioma de uma cultura que ocupa posição central nas relações de poder — aqui, como se percebe, a redundância se impõe.

Europeísta: um projeto?
À guisa de conclusão, recordo a prosa precisa de Ernesto Sábato: “Os europeus não são europeístas; são simplesmente europeus.”[10] O europeísta lida com códigos de uma cultura que, em alguma medida, sempre permanecerá terra estrangeira. É por ser radicalmente forâneo que o europeísta mantém a necessária dose de irreverência para zombar da arrogância dos valores hegemônicos. Para ser europeísta, é preciso aprender pelo menos uma segunda língua e depois uma nova cultura e literatura.

Eis uma tradução bem-humorada do princípio: a distância entre europeu e europeísta jaz no tamanho de suas bibliotecas! O europeísta tem que dominar pelo menos duas tradições — a européia e a sua. A questão nada tem a ver com número de livros na estante, mas à necessidade de relacioná-los, estabelecendo critérios de leitura, cuja ampliação favorece a intensidade estrutural que caracteriza a potência da circunstância não-hegemônica.

Contudo, não se esqueça: potência poucas vezes atualizada na história cultural latino-americana.

(Em boa medida, porque ainda hoje é quase inexistente o diálogo entre cultura brasileira e mundo hispanoamericano.)

NOTAS
[1] A melhor introdução ao conceito de sistema-mundo é de seu autor: Immanuel Wallerstein, World-Systems Analysis: An Introduction, Durham, North Carolina, Duke University Press, 2004.
[2] Domingo Faustino Sarmiento, “Nuestro folletín”. Obras completas. Santiago de Chile: Imprensa Gutenberg, 1885. Tomo II, p. 3, grifos meus. Devo essa citação a Jens Andermann.
[3] Oswald de Andrade. “Manifesto Antropófago”. A utopia antropofágica. 2a. edição. São Paulo: Editora O Globo, 1995, p. 47.
[4] Gabriel García Márquez. “Posibilidades de la antropofagia”. Obra periodística 1. Textos costeños (1948-1952). México: Editorial Diana, 2010, p. 400.
[5] Machado de Assis. Obra completa. Vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 673.
[6] Para discutir o tema em chave renovada, recomendo o livro de José Luís Jobim,Literatura e Cultura: Do nacional ao transnacional (Rio de Janeiro: EdUERJ, 2013).
[7] Idem, p. 1.013, grifos meus.
[8] Ricardo Piglia. “La novela polaca”. Formas breves. Barcelona: Editorial Anagrama, 2000, p. 72, grifos meus.
[9] Milton Hatoum. “Encontros na península”. A cidade ilhada. Contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 104.
[10] Ernesto Sábato, La cultura en la encrucijada nacional. Buenos Aires: Crisis, 1972, p. 27.

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHAÉ professor de Literatura Comparada da UERJ. Autor de Exercícios críticos: Leituras do contemporâneoCrítica literária: em busca do tempo perdido?, entre outros.

FONTE: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/literatura-do-suburbio-do-mundo/

Animação baseada no poema Bluebird, do poeta Charles Bukowski