Teoria Literária

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MACEIÓ, 1930

roda maceió

 

Por Luiz Ruffato

Se é verdade, como prova com veemência Joaquim Inojosa[1], que Gilberto Freyre (1900-1987), num de seus rasgos de mitomania, inventou a existência de um Manifesto Regionalista, que teria redigido em 1926, em Recife (PE), não é menos verdade que o sociólogo exerceu decisiva influência na conformação do ideário do chamado “Regionalismo de 30”. Em 1923, recém-chegado dos Estados Unidos, onde estivera estudando desde cinco anos antes, Freyre “andava em verdadeiras núpcias com a terra”[2], segundo palavras de José Lins do Rego (1901-1957): “Havia nessa época o movimento modernista de São Paulo. Gilberto criticava a campanha como se fosse de uma outra geração. O rumor da Semana de Arte Moderna lhe parecia muito de movimento de comédia, sem importância real. O Brasil não precisava do dinamismo de Graça Aranha, e nem da gritaria dos rapazes do Sul; o Brasil precisava era de se olhar, de se apalpar, de ir às suas fontes de vida, às profundidades de sua consciência”[3].

E são as idéias de constituição de um “regionalismo orgânico”[4] que Freyre, a convite de José Lins, apresentará, em 1924, aos jovens escritores da Paraíba (João Pessoa), entre eles o romancista José Américo de Almeida (1887-1980), que quatro anos mais tarde publicariaA bagaceira, tido como marco inaugural do movimento. Naquela época, José Lins, formado em Direito no Recife, onde se tornara amigo de Freyre, estava de volta à Paraíba para se casar. Em 1925, ele ingressa no Ministério Público e muda-se para Manhuaçu (MG), mas um ano depois renuncia ao cargo de promotor público e consegue uma nomeação para fiscal de bancos em Maceió (AL). E esta pequena cidade, de pouco mais de 90 mil habitantes, onde permanecerá por quase dez anos, entre 1926 e 1935, o futuro romancista transformará em foco de irradiação das convicções ideológicas de Freyre (que evidentemente passam a ser também suas).

Logo ao desembarcar em Maceió, José Lins retoma sua atividade jornalística, iniciada no Recife, e faz-se amigo de Jorge de Lima (1893-1953), médico, ex-deputado e celebrado poeta parnasiano (principalmente pelo soneto O acendedor de lampiões, do seu livro XIV Alexandrinos, publicado em 1914). Em 1925, Jorge de Lima imprime um folheto de poemas, intitulado O mundo do menino impossível, saudado por José Lins com entusiásticas palavras, devido à sua adesão não ao modernismo, mas… ao regionalismo. “Jorge de Lima (…) voltou a si, recobrou os sentidos.// A sua literatura de antes era uma literatura fora do tempo e do espaço. E mesmo, se quiséssemos situá-la, uma arquitetura em cera”[5]. E continua, afirmando que se o poeta rompeu com o passadismo, não foi a “convenção modernista” que o levou aos novos versos: “A poesia foi quem o levou a isso.// Aos seus poemas ele deixou que vivessem à vontade. Fugiu de os ajustar aos seus preconceitos de antigamente ou de os compor assim para não ficar atrás, como certos sujeitos, sempre preocupados em tomarem à hora certa os trens que levam à notoriedade e à voga”[6]. Este texto, publicado originalmente nas páginas do Jornal de Alagoas, passou a integrar, como posfácio, as edições de Poemas, de 1927, e Poemas escolhidos, de 1932.

Novas idéias
José Lins afirma mesmo que foi sua a sugestão para a composição de um dos mais célebres poemas do amigo, Essa Negra Fulô[7], de claro cunho regionalista. “O tema do ‘Negra Fulô’ foi dado por mim que, tendo lido o ‘Coco do Major’, de Mário de Andrade (a quem conheci de passagem por Maceió), lhe sugeri produzisse um poema baseado no coco alagoano”[8]. E ambos iriam contribuir significativamente para espalhar as novas idéias no ambiente provinciano. “Que havia em todo o país uma preparação psicológica para o advento de uma nova estética, prova-o o fato de o Modernismo haver surgido quase ao mesmo tempo em diversos lugares.// Não passamos a fazer literatura modernista para imitar os nossos confrades de São Paulo e daqui [do Rio]. Abandonamos os velhos moldes porque também em Maceió, como em todo o Nordeste, àquele tempo, amadureceu e tomou forma, no espírito dos escritores, o desejo de fazer alguma coisa nova e diferente do que então se perpetrava por esse Brasil afora, na poesia, no romance, no ensaio, etc.”[9], argumenta Jorge de Lima. Assim, em 1927 um grupo de adolescentes[10] criou em Maceió o Grêmio Literário “Guimarães Passsos” que, em 17 de junho de 1928, realizou a “Festa da Arte Nova”, uma espécie de Semana de Arte Moderna da cidade. Mas a entrada desses jovens na modernidade do século 20 só foi comemorada quando, em 23 de junho de 1929, promoveram a “Canjica Literária”, um evento regionalista, sob influxos de Jorge de Lima e de José Lins[11].

Mudanças
Enfrentando problemas políticos, em 1930 Jorge de Lima decide ir embora de vez para o Rio de Janeiro. Em abril daquele ano, Graciliano Ramos (1892-1953) renuncia ao mandato de prefeito de Palmeira dos Índios e em maio já está morando em Maceió, nomeado diretor da Imprensa Oficial do estado. Lá, convive com José Lins — ambos colaboram no Jornal de Alagoas —, mas no final de 1931, demitido, volta para Palmeira dos Indios. Em janeiro de 1933 muda-se novamente para Maceió, agora como diretor de Instrução Pública do estado, cargo no qual permanece até 1936. Esse será um período de intensa atividade literáriapara José Lins e Graciliano. Em 1932, José Lins imprime, por conta própria, dois mil exemplares de seu primeiro romance, Menino de engenho, que rapidamente se esgotam, alcançando enorme sucesso no Rio de Janeiro e projetando o nome do autor. Na sequência, publicará quase todo o chamado Ciclo da Cana-de-Açúcar: Doidinho (1933), Banguê(1934), O moleque Ricardo (1935) — que se completa com Usina (1936). Graciliano estréia em 1933, com Caetés, que também chama a atenção da crítica e do público, e lança no ano seguinte São Bernardo. No entanto, acusado de subversão, em 3 de março de 1936 é preso e enviado para o Rio de Janeiro, onde ficaria encarcerado até janeiro de 1937, sendo solto graças aos esforços do amigo José Lins, que, nomeado fiscal do imposto de consumo, se transferira para a Capital Federal em fins de 1935. É ainda pelas mãos de José Lins que o terceiro livro de Graciliano, Angústia, cujo cenário é Maceió, é publicado em 1936, estando o autor na cadeia. J. Nemésio relembra a convivência dos dois na capital alagoana: “Mais tarde, vi-os novamente, desta vez juntos, em Maceió, e já camaradas, ambos já criticando os figurões da terra, costurando pessoas e coisas, cochichando, rindo, cutucando ‘personalidades’”.[12]

Nesta época, José Lins se tornará amigo do conterrâneo Santa Rosa (1909-1956), funcionário do Banco do Brasil, que morou em Maceió em 1932, e que, radicando-se no ano seguinte no Rio de Janeiro, será reconhecido como artista plástico, crítico de arte, cenógrafo e um dos maiores capistas brasileiros de todos os tempos[13]. E, ambos, José Lins e Graciliano, ainda conviverão com a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003), em 1933, já consagrada pelo êxito de seu primeiro livro, O quinze (1930), e tendo lançado outro romance, João Miguel(1932), responsável pelo seu rompimento com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Jorge Amado (1912-2001) irá recordar com carinho esse momento, quando decidiu viajar até Maceió para conhecer pessoalmente Graciliano: “Fui encontrá-lo num bar; tomava café preto em xícara grande, cercado pelos intelectuais da terra — todos eles reconheciam a ascendência do autor ainda inédito, era o centro da roda. Ficamos amigos imediatamente. (…) Fiquei amigo também de todo o poderoso grupo de escritores que vivia em Maceió. Digo vivia, pois, além dos alagoanos — Graciliano, Valdemar, Aurélio Buarque de Hollanda, Alberto Passos Guimarães, Raul Lima, Theo Brandão, José Auto, Diegues Júnior, Carlos Moliterno, o poeta Aluísio Branco e o contista Carlos Paurílio — ali residiam, na ocasião, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz, dois dos mais importantes entre os jovens romancistas”[14]. Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira relembra: “À noite, o grupo (…) reunia-se no ‘Ponto Central’, não faltando às conversas outros escritores mais jovens ou menos famosos (…)[15]”.

A partir de 1939, estarão todos reunidos novamente no Rio de Janeiro[16], onde o consultório médico de Jorge de Lima, na Cinelândia, transforma-se em ponto de encontro dos intelectuais radicados na capital da República, particularmente com alguns dos quais convivera em Maceió. E essa amizade, de influências recíprocas, é que permitiu que os chamados “regionalistas de 30” renovassem o regionalismo nordestino imediatamente anterior, tendo em Gilberto Freyre um sucessor ideológico de Franklin Távora (1842-1888) — assim como, de certa maneira, Mário de Andrade (1893-1945) retomaria no século 20 as idéias de José de Alencar (1829-1877). Os regionalistas eram modernos, sim, mas não modernistas…


[1] V. Sursum corda! Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1981.

[2] REGO, José Lins do. “Gilberto Freyre”. In: O cravo de Mozart é eterno. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004 (p. 49).

[3] Idem, p. 52.

[4] “O regionalismo é um esforço no sentido de facilitar e dignificar certa atividade criadora local desembaraçando o que há de pejorativo em ‘provinciano’ de qualidades e condições geográficas”, escreveria Gilberto Freyre em 7 de fevereiro de 1926, no Diário de Pernambuco. In: FREYRE, Gilberto. Manifesto Regionalista. 7ª edição revista e aumentada. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, 1996 (p. 110).

[5] LIMA, Jorge de. Poesias completas – Volume I. Rio de Janeiro/Brasília: José Aguilar/MEC, 1974 (p. 139).

[6] Idem, p. 144.

[7] Publicado originalmente em 1928, como folheto, e incorporado a Novos Poemas, de 1929.

[8] IVO, Ledo. Anos de aprendizagem de José Lins do Rego – A história de sua criaçãoartística. Rio de Janeiro: Tribuna dos Livros, 21-22 de setembro de 1957.

[9] SENNA, Homero. República das Letras – entrevistas com 20 grandes escritores brasileiros. 3ª edição, revista e ampliada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996 (p. 129-130)

[10] Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, Arnon de Mello, Manuel Diegues Júnior, Mendonça Júnior, Paulo Malta Filho, Raul Lima, Valdemar Cavalcanti, Emílio de Maya, Carlos Paurílio e Aluísio Branco.

[11] V. SANT’ANNA, Moacir Medeiros de. História do Modernismo em Alagoas (1922-1932). Maceió: Edufal, 1980.

[12] “José Lins e Graciliano”. São Paulo: Diário de São Paulo, 19/10/1950

[13] Seus primeiros projetos gráficos serão para o romance Caetés, de Graciliano Ramos, pela Schmidt Editora; e Cacau, de Jorge Amado, e Doidinho, de José Lins do Rego, para a Ariel Editora. Depois se tornará o capista quase oficial da Livraria José Olympio Editora.

[14] “O Dia em que conheci Graciliano”. São Paulo: Status, novembro de 1978 (p. 150-151).

[15] SENNA, Homero. República das Letras – entrevistas com 20 grandes escritores brasileiros. 3ª edição, revista e ampliada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996 (p. 265).

[16] Pela ordem de chegada: Jorge de Lima (1930), José Lins do Rego (1935), Graciliano Ramos (1936), Aurélio Buarque de Hollanda e Rachel de Queiroz (1939).

 

 

Fonte: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/maceio-1930-2/

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