Teoria Literária

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Arquivo mensal: outubro 2013

ACHADO: Assista filmes brasileiros completos no youtube

O canal Filmes Brasileiros Completos reúne obras de boa qualidade do cinema nacional.

O que realmente mais impressiona na lista do “Filmes Brasileiros Completos” são as obras raras, que não estão disponíveis nem em DVD. “A hora e a vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, por exemplo, foi uma adaptação de sucesso da obra de Guimarães Rosa, mas o acesso a uma cópia do filme hoje é praticamente impossível. O canal também tem uma versão na íntegra de “Cabra marcado para morrer” (1984), de Eduardo Coutinho, outro que não foi lançado em DVD e que não se encontra por aí nas locadoras.

Por outro lado, o canal também tem disponíveis obras mais recentes, cujos DVDs acabaram de ser lançados. É o caso de “Xingu”, de Cao Hamburger, e “Paraísos artificiais”, de Marcos Prado, dois filmes que chegaram aos cinemas este ano. A rápida repercussão do canal fez com que Eduardo Carli criasse outra lista, esta dedicada a filmes estrangeiros, onde estão listados obras de Ingmar Bergman (“Persona), Luis Buñuel (“O anjo exterminador”), Gus Van Sant (“Elefante”), Akira Kurosawa (“Rashomon”) e Abbas Kiarostami (“Close-up”), entre outros, num total de 103 produções.

Confira o canal:

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CONSIDERAÇÕES SOBRE A HORA DA ESTRELA, DE CLARICE LISPECTOR

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Vivemos em uma sociedade onde os produtos advindos da indústria cultural influenciam diretamente as massas. Logicamente, cada pessoa tem percepções diferentes acerca de tais produtos devido às crenças, ideologias e valores, sendo correto afirmar a existência de
formas de consumo diferenciadas de acordo classe social. É justamente esse ponto que o presente artigo irá tratar: a subjetividade de consumo com relação aos produtos advindos da indústria cultural presentes em uma personagem de ficção da obra A hora da Estrela de Clarice Lispector. A personagem em questão é Macabéa que, além de descortinar as mazelas sociais existentes em um habitus cultural marcado pela pobreza, nos mostra sobre a alienação provocada pelos veículos midiáticos.

Desse modo, o conceito de habitus formulado por Pierre Bourdieu (2006) tem uma importância fundamental: demonstrar como o lugar social pode condicionar os agentes a posicionamentos conformistas devido à estrutura privilegiada de poder determinado, tanto pelas relações materiais, quanto pelas relações simbólicas entre os indivíduos. Vendo nesta perspectiva, é possível falarmos em formas específicas de consumo dos quais são realizadas diferentes apropriações e usos dos produtos da indústria cultural. Contudo, sem querermos validar posições universalistas, em que a subjetividade de um consumo (mostrados por Macabéia) pode representar os segmentos desprivilegiados culturalmente? É justamente a partir dessa indagação que nossas análises se pautaram.

 

A INFLUÊNCIA DO HABITUS SOCIAL

[…] o habitus é o princípio da estruturação social da existência temporal, de todas as antecipações e pressuposições através das quais construímos praticamente o sentido do mundo, isto é, sua significação, mas também, inseparavelmente, sua orientação para o por-vir (BOURDIEU, 2006, p, 364).

Segundo Pierre Bourdieu (2006), o fator determinante para as diferentes intepretações de tudo que existe na sociedade é o contexto social e o lugar do indivíduo neste contexto (habitus). As diferentes formas de representação traduzem posições, interesses, confrontos ou formas de um grupo se portar e, ao se basear no aparato simbólico, informa as diferentes modalidades de apreensão do real.

Levando em consideração a influência direta do habitus no condicionamento dos indivíduos, identificamos em Macabéa como o lugar social e a posição do ser na sociedade interferem nas percepções do mundo. Assim, a personagem criada por Clarice Lispector, representa a conformidade dos desprivilegiados (ou seja, aqueles que não tiveram acesso à escolaridade) com a estrutura de poder e a alienação promovida pela indústria cultural.

A subjetividade de consumo em A hora da Estrela, identificado na nordestina alagoana, pode ser considerada como a representação dos desprovidos de educação e um exemplo real de como os desprivilegiados estão suscetíveis à não compreensão da realidade em sua volta. Macabéa, ao se posicionar frente aos objetos de cultura de massa (anúncios, rádio e cinema), deixa explícito:

A alienação dos consumidores em relação à verdadeira natureza do objeto que consomem abre as portas para uma alienação mais profunda, a da naturalização das relações sociais de produção e de trabalho, de modo que o encobrimento da realidade social do produto serve à exploração das forças de trabalho que o produziram. O resultado desse processo, portanto, é a opressão das massas consumidoras, mas também e, principalmente, das massas trabalhadoras (MACEDO; OLIVEIRA; FONSECA; SILVA, 2002 p. 326).

A naturalização das relações sociais é algo visível na vida de Macabéa fato que só aumentava devido às superstições presentes em sua vida: imaginava se um dia viesse a ser outra pessoa e sentisse o gosto bom de viver se transformaria em um bicho rasteiro assim, por pior que se encontrasse, não podia mudar de posição, adquirir mais bens, destaque ou prestígio no trabalho, pois tinha medo de ser castigada.

Tola e submissa, Macabéa faz parte de uma sociedade que não induz o indivíduo a percepções críticas e sim a visões alienadoras e conformistas porque pretende manter a dominação em todos os níveis. Na obra, há uma irredutível falta de atitude da personagem com sua situação justamente porque não sabia argumentar nada a seu favor e, mesmo quando foi demitida pelo chefe da fábrica de roldanas, por exemplo, ao invés de dizer algo em sua defesa, pediu desculpas pelo aborrecimento, fato que, temporariamente, fez o seu chefe adiar a despedida.

Sobre essa alienação promovida pela estrutura social desigual, Bourdieu (2006) afirma que a mesma faz parte das lutas de Poder para garantir a autonomia dos abastados, pois se dentro da sociedade a maioria dos agentes questionassem as normas impostas, a dominação não ficaria garantida. Assim, quanto mais há experiência temporal ingênua, mais o poder político, cultural e ideológico dos campos do poder estarão garantidos.

Olhando por esse víeis, é a partir da indústria cultural que a dominação atingiu níveis altíssimos e as massas se tornaram cada vez mais submissas à doutrinação sub-reptícia por meio da diversão. Macabéia representa bem as grandes massas alienadas: de índole passiva, tornou-se presa fácil dos mitos e conhecimentos superficiais da indústria cultural.

Segundo Flávio Kothe (1994), a inovação tecnológica repassa conhecimentos de estrutura simplória e, como as grandes massas não estão acostumadas a refletir e questionar devido à percepção empobrecida e o raciocínio embotado, as alienações que esses bens industriais promovem passam despercebidas. Através dos meios de comunicação de massa o trivial ganhou espaço: no cinema, grande parte das adaptações de obras é mal feita e os valores presentes da alta cultura passam a ser ignorados e, pior, trivializados em best-sellers. Já a televisão, como um veículo dominante, não induz ao autoquestionamento e nem promove o destaque de mensagens complexas e reflexivas. Nas suas palavras:

Por intermédio da eletrônica, implantou-se a regressão espiritual. A narrativa trivial é a narrativa preponderante das massas: na sua estrutura simplória, estrutura-se a falta de profundidade e de cultivo da população média que, por sua vez, é mantida por meio da trivialidade, que se disfarça por intermédio da diversificação. […] Prepondera-se cada vez mais a narrativa trivial, destinada a recuperar, apaziguar e reproduzir as forças de trabalho: não há espaço propriamente para a arte, de maneira que a trivialidade também não é percebida como tal (KOTHE, 1994, p. 20).

Fica evidente na grande massa a alienação devido ao desenvolvimento tecnológico que não garante o progresso da consciência e a construção do pensamento argumentativo/ questionador.  Mas quais são os estratagemas utilizados pela indústria cultural para render a atenção do receptor? Os truques são os mais variados possíveis e visa induzir a naturalização do consumo através da intensa propaganda, mensagens subliminares expressas em todos os ambientes levando as massas a acreditarem que a felicidade só estaria presente se pudessem consumir determinados objetos ou estilos de vida.

No caso de Macabéa, apesar de ser extremamente pobre e não ter condições de consumir os variados objetos produzidos pela indústria cultural, os poucos bens a que tinha acesso deixavam-na cada vez mais tola e submissa. Sua relação com o rádio, por exemplo, como a única forma de ter acesso ao conhecimento já denota a alienação, pois considerava sagrado ouvir a “Rádio Relógio” todos os dias que dava a “hora certa e cultura” e ainda fazia propaganda de “[…] anúncios comerciais – ela adorava anúncios. Era rádio perfeita, pois também entre os pingos do tempo dava curtos ensinamentos dos quais talvez algum dia viesse a precisar saber” (LISPECTOR, 1995, p. 44). Se analisarmos o tipo de conteúdo falado na rádio a partir do exposto por Clarice Lispector, em nenhum momento tais conteúdos visam refletir sobre os aspectos político-sociais, promovendo percepções menos ingênuas da realidade que as grandes massas vivem.

Pelo contrário, eram assuntos vazios que não preparavam ninguém para a vida. Entretanto, Macabéa tratava de decorá-los, pois acreditava que poderia precisar, em algum momento, usar a gama de informações expostas na rádio.  E ainda, aceitava passivamente todos os dizeres do locutor, não questionando, em hipótese nenhuma, a origem, se o “conhecimento” é verdadeiro ou falso.

De todas as formas, Lispector descortina as mazelas sociais presentes no Brasil, visando provocar um desconforto no leitor com o despreparo, falta de atitude e de conhecimento da alagoana. Ao demonstrar que Macabéa desconhecia o significado de muitas palavras proferidas na “Radio Rélógio” (“élgebra”, “cultura”, “eletrônico” “renda per capita”), mas uma vez podemos relacionar a obra com os conceitos de Bourdieu (2006) relacionados às imposições da exigência de mercado (jornais, rádio, cinema, etc.), que não visam refletir sobre o significado dos conteúdos expostos para a população, e sim cedem espaço para as manipulações dos anunciantes, ou seja, os donos do poder.

Entre os parcos prazeres de Macabéa, ler anúncios recortados de jornais velhos do escritório durante as noites de frio e ir ao cinema uma vez ao mês demonstram como sua vida girava em torno da indústria cultural e não de procurar desvelar a condição de miséria e descaso que sofria na sociedade.

Convém destacar sobre essa questão da alienação, as contribuições da Escola de Frankfurt, onde diversos pensadores deixaram reflexões teóricas com relação à verdadeira face da indústria cultural. Entre esses homens, citamos Theodor Adorno, Max Horkheimer, Water Benjamim e Herbert Marcuse, que organizaram no início de 1920 uma série de discussões a respeito das obras de arte e as diversas mídias emergentes que haviam sido acorrentadas à política capitalista. A dissolução da obra de arte e da cultura viabilizada pela revolução tecnológica (cinema, televisão, rádio, etc.) representaria a ordem existente e não induziria as massas a percepções críticas. Para Adorno e Horkheimer a questão era que as formações modernas se transformaram em lugares administrados pelas concepções capitalistas de mercado o que gera alienação afastando as possibilidades de resistência (FREITAG, 1998).

Pierre Bourdieu também nos oferece suas considerações com relação a esse assunto, mas apesar de identificarmos a influência dos teóricos da Escola de Frankfurt, vemos nas suas análises a ultrapassagem dos conceitos desses teóricos. Segundo Maria da Graça Jacintho Setton, há uma relevância nas contribuições de Bourdieu, que introduz na discussão o conceito de poder simbólico e não partilha da ideia da uniformização das mentes pregadas pelos teóricos de Frankfurt, pois acredita que de acordo com os habitus, existem práticas e concepções hierarquizadas entre os produtores e consumidores de bens culturais, fato que impede a homogeneização das consciências. O agir e o pensar dos agentes dessa forma, estão submetidos aos valores simbólicos pregados pela família, a escola, mídia, etc. Cada um de forma diferente e inconsciente impondo maneiras específicas de padrões e comportamentos. Por isso, segundo Setton, Bourdieu acredita que:

[…] o poder simbólico poderia ser definido como um poder invisível, o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que estão sujeitos a ele ou mesmo que o exercem. Na forma de prestígio, reputação ou fama, o poder simbólico nada mais é do que a união dos outros tipos de poderes (econômico e cultural) ao se tornarem reconhecidos legitimamente (SETTON, 2001, p. 09).    

Macabéa foi vítima mais do que foi cúmplice do poder simbólico de inculcação de valores. Na infância, aprendeu a baixar a cabeça para todos os castigos impostos pela tia; assim, nunca argumentou ou se defendeu das imposições sendo “[…] muito impressionável e acreditava em tudo o que existia e no que não existia também” (LISPECTOR, 1995, p. 41).

Entretanto, Macabéa não foi vítima somente das imposições de sua tia. Ao chegar ao Rio de Janeiro, torna-se alvo fácil do poder simbólico dominante, que não está preocupado em melhorar efetivamente as mazelas sociais e sim de introduzir manipulações às massas, pois como já mencionamos quanto mais existirem agentes conformistas mais o poder do capitalismo ficará garantido. O progresso tecnológico constante aumenta esse poder e a dominação em todos os aspectos da vida dos indivíduos (trabalho, lazer etc.). Porém, tais inovações jamais podem vir acompanhadas de um aumento efetivo de conteúdo ou de mentalidade questionadora da ordem vigente. Daí vem o porquê que a maioria da população ajuda a aumentar as desigualdades, tornando-se cúmplices, ainda que inconscientemente, da manipulação tecnicista.

Como ficou exposto, o habitus social de Macabéia desde a infância não permite ou induz à indagação e ação na busca de melhorias das suas condições sociais e, mesmo que demonstre interesse em palavras reveladoras de sua condição sub-humana de existência, por não saber o significado, isso não a leva ao autoconhecimento, como bem expõe Lispector:

Outro retrato: nunca recebera presentes. Aliás, não precisava de muita coisa. Mas um dia viu algo que por um leve instante cobiçou: um livro que Seu Raimundo, dado a literatura, deixara sobre a mesa. O título era “Humilhados e Ofendidos”. Ficou pensativa. Talvez tivesse pela primeira vez se definido numa classe social. […]. Chegou à conclusão que na verdade ninguém jamais a ofendera, tudo que acontecia era porque as coisas são assim mesmo e não havia luta possível, para que lutar? (LISPECTOR, 1995, p. 46).

Dos vários retratos mostrados pela escritora, esse trecho revela a total ingenuidade na forma de lidar com o mundo: por estar tão habituada a viver como assomo ou escória da sociedade, Macabéa acredita que esse é o seu papel e não poderia desejar ser outra pessoa ou mudar sua realidade. Mesmo vendo o livro que supostamente desvelaria a condição social na qual está inserida, faz uma leitura ingênua do título não identificando o que de fato aquelas palavras revelam.

Bourdieu afirma que “as antecipações do senso comum são mais fortes que a evidência dos fatos” (BOURDIEU, 1996, p. 358). Dessa forma, quando os indivíduos estão acostumados a viverem de uma maneira alienada, é difícil buscarem visões diferenciadas dos sistemas sociais, pois, de acordo com Bourdieu, suas interpretações do mundo baseiam-se no conjunto de pressupostos usados cotidianamente, não se dando conta que esses pressupostos podem ocultar o verdadeiro, especialmente na sua estrutura temporal. Macabéa é o exemplo de como uma leitura submissa, apressada e distraída deixam passar despercebidas evidências vitais para o conhecimento real do mundo e do tempo.

É evidente que Macabéa, em sua forma de consumir os produtos advindos da indústria cultural, tem uma identidade comum com as massas, pois também não possuem percepções críticas do social devido à falta de oportunidades e, principalmente, as desigualdades existentes nas malhas do Poder. Por isso, os indivíduos como Macabéa não identificam na leitura dos livros e do mundo as possibilidades de questionamento e mudança social, fato cada vez mais comum com o surgimento da indústria cultural e do desenvolvimento dos veículos midiáticos.

Interessante frisar um aspecto de A Hora da Estrela: o leitor apreende todos os fatos e fracassos de Macabéa pelo narrador Rodrigo S. M.; isso porque Lispector pretende ressaltar que as injustiças sociais não estão presentes somente entres os alienados e sim em todos os âmbitos, inclusive através dos preconceitos sociais contra as escritoras mulheres que impõem barreiras à emancipação do segmento feminino. Daí a utilização de um narrador homem que expõe vários retratos da vida da alagoana desde as desigualdades existentes de uma classe social para com outra, ao tecnicismo homogeneizador das consciências e assomos que fazem parte das vítimas alienadas das injustiças sociais:

Com esta história eu vou me sensibilizar, e bem sei que cada dia é um dia roubado da morte. Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta (LISPECTOR, 1995, p. 25-26).

Como Macabéa, as vítimas submissas das injustiças sociais são mudas, não sabem se expressar através de um grito de basta, de chega, no intuito de mudar a realidade em sua volta. Esse fato não quer dizer que os segmentos que têm uma posição melhor na sociedade não sofram injustiças, o exemplo é a autora da obra que, mesmo sendo intelectual e dispondo de condição social respeitável, também foi vítima, porque pertencia ao segmento feminino. Contudo, mesmo sendo relegada aos preconceitos da sociedade machista, teve a possibilidade de se expressar (diferente dos indivíduos alienados) e através de sua escrita denunciar as imperfeições da sociedade tecnocrática e machista.

Durante toda a obra, a nordestina pouco fala sobre si. Rodrigo S. M. deixa bem claro esse aspecto justamente para chocar o leitor do despreparo para a vida presente naquele ser. Ao expor vários retratos de Macabéa, desvela a falta de atitude mesmo em seus desejos mais profundos: queria ser atriz de cinema como Marilyn Monroe, desejo que poderia ser um motivador para uma mudança, mas estava tão habituada a se esquecer de si mesma que nunca quebrava seus hábitos: não se preocupava com o futuro (possuir um futuro era um luxo), não demonstrava tristeza (nem quando perdeu seu namorado para sua colega de profissão, Glória), pois tristeza na sua concepção era coisa de rico e, pior, jamais se deu conta da sociedade tecnicista. Macabéa era um parafuso dispensável: “Não sabia que ela própria era uma suicida embora nunca lhe tivesse ocorrido se matar. É que a vida lhe era tão insossa que nem pão velho sem manteiga” (LISPECTOR, 1995, p. 63).

A única atitude da nordestina perante a vida foi ir à cartomante ver o seu futuro. Na ocasião, pela primeira vez, adquiriu esperanças, já que as cartas mostravam-lhe um bom futuro: se casaria com um estrangeiro, engordaria e até os cabelos aumentariam. Macabéa, que nunca tinha se preocupado com a vida (até então se considerava feliz), só naquele momento pode constatar sua infelicidade, pois a felicidade era muito mais do que a vida miserável que levava. Entretanto, a ilusão da realidade bateu na porta da nordestina: a morte foi irremediável, logo que saiu da casa da madame, morreu, foi atropelada por um transatlântico Mercedes amarelo e seu destino tão bonito de repente acabou no trágico acidente.

“Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida é um soco no estômago” (LISPECTOR, 1995, p. 85). Com essas palavras quase finais do narrador Rodrigo S. M., podemos refletir sobre a figura do intelectual engajado: sua função é demonstrar como a literatura serve para o desvendamento das tessituras sociais, não devendo estar submetida às instituições eclesiásticas, estatais e acadêmico-universitárias, pois a autonomia racional conferiu autoridade para criticar todos os tipos de instituições e relações sociais marcadas pelas desigualdades.

A importância da autonomia do campo se dá justamente porque é neste momento que os intelectuais podem defender causas universais (como a igualdade entre os indivíduos) sem condicionar sua escrita à lógica dominante que impõem valores e ideologias em favor da sociedade vigente (BOURDIEU, 1996).

Refletindo um pouco mais sobre A hora da Estrela, podemos dizer que a literatura ativa e engajada é um veículo importante para descortinarmos as mazelas sociais, as imposições e ilusões que a indústria cultural provoca nas mentalidades das massas. Desse modo, a ficção é capaz de produzir e desmascarar as ilusões e imperfeições presentes na estrutura do mundo social, mas diferentemente das análises científicas, pois nelas “[…] habitam uma história, na qual se realizam e se dissimulam a uma só vez. […] não revelam as estruturas e as questões que impõem a seu respeito […]” (BOURDIEU, 1996, p. 368-369), a não ser levando em consideração somente o senso comum e a dissimulação.

Fazendo um paralelo com a atualidade, observamos que o livro de Lispector é um importante veículo para identificarmos que a estrutura de dominação precisa urgentemente ser modificada, pois, caso contrário, a imposição de valores aumentará e, consequentemente, o conformismo e a manipulação midiática. É triste, mas a realidade coloca o poder tecnocrático nos agentes a todo o momento, não induzindo os mesmos a perceberem a influência negativa de tais imposições no senso perceptivo.

A Hora da Estrela em todos os sentidos nos propõe aquilo que Roland Bathes (1996) discute sobre o texto proporcionador de prazer: é uma deriva, pois não está de acordo em expor as ideologias dominantes e sim contestar as desigualdades sociais, combate a homogeneização do pensamento refletindo sobre o cotidiano e a vida social, subverte a unidade moral reinante e ainda, de uma forma atrativa e envolvente, nos induz à reflexão sobre o Poder do sistema simbólico vigente, que procura validar como natural as desigualdades, que na verdade são uma imposição disfarçada dos interesses de uma classe ou grupo social.

A leitura crítica da obra de Lispector revela não só a questão das mazelas sociais existentes de um habitus cultural para outro, mas também suscita reflexões abrangentes sobre o papel do intelectual na sociedade como um ser que precisa lutar para a melhoria das condições sociais. A arma utilizada nesta luta é a escrita, instrumento que de todas as formas podem induzir à reflexão e à motivação dos indivíduos para melhoria do ambiente no qual estão inseridos.

Neste sentido, através de Rodrigo S. M., Lispector nos propiciou uma forma diferente de olhar as injustiças sociais: quem escreve a obra é uma mulher, mas como uma mulher pode lacrimejar piegas, segundo as palavras da própria escritora, é o homem que deve narrar os fatos tais como são sem esconder nada ao leitor: injustiças, preconceitos, discriminações, tudo, exatamente, deve ser contemplado da forma como ocorre na realidade, pois mesmo que o procedimento seja o da ficção, é função do intelectual visualizar o meio, as patologias e preconceitos, não omitindo nada em favor do poder dominante, que visa a todo o momento disfarçar os problemas sociais. A grande mensagem da obra é o descortinar de uma forma irreverente e inovadora as misérias e submissões reinantes na vida dos agentes, em nome de um poder que sabe muito bem como distrair, cotidianamente, através de manipulações de todas as espécies.

 

Considerações Finais

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, renova a cada leitura e intepretação a função da literatura na sociedade como veículo proporcionador de desconforto e, ao demonstrar as patologias sociais, as alienações provocadas pelas estruturas do poder na massa; remetem-nos a ideia postulada por Pierre Bourdieu de como um habitus social, desprivilegiado das estruturas de conhecimento, podem promover concepções ingênuas da realidade. Neste sentido, ao discutir cultura de massa expressa nas rádios, nos anúncios e no cinema, demonstra de uma forma diferente aquilo que Bourdieu já discute em seus trabalhos:

[…] aqueles que controlam o acesso aos instrumentos de comunicação tendem a instaurar o vazio de ronrom mediático no coração do aparato de comunicação e impor cada vez mais os problemas superficiais e artificiais nascidos apenas da concorrência pela mais vasta audiência até nos campos políticos e nos campos de produção cultural. […] através da publicidade, exercem uma influencia direta sobre a influencia escrita e falada, podem assim impor uma dominação […] (BOURDIEU, 1996, p. 376).

Portanto, a monopolização das formas de conhecimento pela indústria cultural condiciona as massas a uma experiência passiva dos saberes demonstrado pelos veículos midiáticos. Dessa maneira, através de Macabéa, Clarice Lispector desvela as injustiças sociais revelando a subjetividade de um consumo como representação das desigualdades existentes entre as massas submissas aos dizeres dominantes.

REFERÊNCIAS

 

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: a gênese da estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das letras, 1996.

BATHES, R. O prazer do texto. Tradução de J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1996.

FREITAG, Bárbara. A teoria crítica. São Paulo: Brasiliense, 1998, p. 9-104.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. 23º edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

KOTHE, Flávio Rene. A narrativa trivial. Brasília – Distrito Federal: Editora da Universidade de Brasília, 1994.

MACEDO, Deise; OLIVEIRA, Dayse Marie; FONSECA, José Guilherme Teixeira da. Consumo e subjetividade: trajetórias teóricas. In: Estudos de Psicologia. 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/epsic/v7n2/a13v07n2.pdf

SETTON, Maria da Graça Jacintho. Indústria Cultural: Bourdieu e a teoria clássica. In: Comunicação e educação. São Paulo, dezembro de 2001. Disponível em: http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/comeduc/article/viewArticle/4505


Josi de Sousa OLIVEIRA é mestranda em Letras – Estudos Literários – pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Atualmente realiza trabalhos referentes à relação literatura e história. E-mail: jos.yd@hotmail.com.

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O trabalho CONSIDERAÇÕES SOBRE A HORA DA ESTRELA DE CLARICE LISPECTOR de Josi de Sousa OLIVEIRA foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
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